Voltei para casa, fui para o meu quarto, sentei na beira da cama.
Chutei os sapatos, desabotoei o sutiã
E caí no choro.
Quero que vocês saibam que
Eu chorei até meu nariz escorrer molhando a blusa de seda que
Comprei na liquidação.
Chorei até minha cabeça doer tanto, que eu mal via a pilha de lenços de papel
No chão aos meus pés.
Quero que vocês saibam
Que ontem eu chorei pra valer.
Ontem eu chorei
Por todos os dias que estive ocupada demais, ou cansada demais, ou com raiva demais para chorar.
Chorei por todos os dias, por todas as formas e por todas as vezes em que desonrei, desrespeitei e desliguei meu Eu de mim mesma.
Mas meu Eu se refletiu de volta para mim quando os outros fizeram comigo as mesmas coisas que eu já fizera comigo mesma.
Chorei por todas as coisas que me foram roubadas;
Por todas as coisas que eu pedi e não consegui receber;
Por todas as coisas que, depois de conquistar, eu dei a outras pessoas em circunstâncias que me deixaram vazia, gasta e exaurida.
Chorei porque realmente chega um momento em que a única coisa que nos resta é chorar.
Ontem eu chorei.
Chorei porque meninos são abandonados pelos pais; e as meninas são esquecidas pelas mães;
Os pais não sabem o que fazem e por isso vão embora;
As mães são abandonadas e ficam com raiva.
Chorei porque eu tive um menininho, e porque eu ainda era uma menina pequena, e
Porque eu era uma mãe que não sabia o que fazer, e
Porque eu queria que meu pai estivesse comigo, que chegava a doer.
Ontem eu chorei.
Chorei porque feri alguém. Chorei porque fui ferida.
Chorei porque a ferida não tem para onde ir senão até o mais fundo da dor que a causou, e quando chega lá a dor acorda você.
Chorei porque era tarde demais. Chorei porque tinha chegado a hora.
Chorei porque minha alma sabia que eu não sabia
Que minha alma sabia tudo que eu precisava saber.
Chorei um choro espiritual ontem, e esse choro me fez muito bem.
E me fez muito, muito mal.
Em meio ao choro, senti minha liberdade vindo,
Porque
Ontem eu chorei
Sobre cada momento da minha vida.
( Iyanla Vanzant)
domingo, 8 de novembro de 2009
sábado, 7 de novembro de 2009

Amor.
Maior que a Vida
Borbulhante.
Que provoque mudanças.
Aventureiro.
Que crie laços...
E muitas novidades.
Cheio de transformações!
Incondicional.
Que mova montanhas.
Profundo.
Com sabor de chocolate.
Cativante.
Que penetre na alma...
Paciente.
Que faça sonhar acordado.
Cúmplice.
De outro mundo...
Que rompa barreiras.
Inesquecível.
Com mil beijos.
Que vire o mundo de cabeça para baixo!
Intenso.
Com muitos banhos de cachoeira.
Sem preconceitos.
Que adore andar de mãos dadas.
Olhos no olhos...
Romântico.
Que provoque sensações.
Agradável.
Com muito amor...
Sem ciúmes.
Que faça diferença.
Que adore ler.
Gostoso como chuva de verão.
Que faça o coração explodir no peito!
Puro.
Que toque violão na fogueira...
Sem medos.
Alto-astral.
Que saiba conversar.
Terno.
Sem cobranças.
Criativo.
Que faça ver estrelas de dia.
Corajoso.
Que sinta saudades de mim...
Companheiro.
Com muitos abraços.
Que tenha garra.
Sincero.
À primeira vista.
Que tome banho de lua!
Com calor humano.
Que adore viajar.
Intuitivo.
Com muito tesão.
Que cheire gostoso...
Holístico.
Que saiba cozinhar.
Forte.
Misterioso como a lua.
Encantado.
Que me aconchegue no peito...
Solidário.
Sem medo de ser feliz!
Que mande flores.
Carinhoso.
Que mergulhe nas ondas do mar.
Que chore de emoção.
Verdadeiro.
Que adore desafios.
Com vida própria.
Divertido.
Quente como um dia de verão.
Fiel.
Lindo como o pôr-do-sol na praia.
Independente.
Que realize sonhos.
Impetuoso.
Que me ame muito!
Sensível.
Que seja eterno...
Apaixonado.
Com muita atração.
Inteligente.
Que escreva cartas de amor.
Sensível.
Que faça os olhos brilharem...
Cheio de surpresas.
Que cante no meu ouvido.
Feliz.
Cheio de amor para dar!

Que não posso exigir o amor de ninguém,
posso apenas dar boas razões para que gostem de mim
e ter paciência para que a vida faça o resto;
Que não importa o quanto certas coisas
são importantes para mim, tem gente que não dá
a mínima e jamais conseguirei convencê-las que posso
passar anos construindo uma verdade e destruí-la
em apenas alguns segundos.
Eu aprendi:
Que posso fazer algo em um minuto e ter que responder
por isso o resto da minha vida;
Que por mais que você corte o pão em fatias,
esse pão continua tendo duas faces, e o mesmo vale
para tudo o que cortamos de nosso caminho.
Eu aprendi:
Que vai demorar muito para me transformar
na pessoa que quero ser, e devo ter paciência;
Que posso ir além dos limites que eu próprio coloquei;
Que eu preciso escolher entre controlar meus pensamentos
ou de ser controlada por eles.
Eu aprendi:
Que os heróis são pessoas que fazem o que acham
que devem fazer naquele momento,
independentemente do medo que sentem;
Que perdoar exige muita prática; condenar é mais fácil !
Que há muita gente que gosta de mim,
mas que não conseguem expressar isso.
Eu aprendi:
Que nos momentos mais difíceis, a ajuda veio
justamente daquela pessoa que eu achava
que iria tentar piorar a minha vida.
Que eu posso ficar furioso, tenho o direito de me irritar,
mas não tenho o direito de ser cruel;
Que jamais posso dizer a uma criança que seus sonhos
são impossíveis. Será uma tragédia para o mundo
se eu conseguir convencê-la disso.
Eu aprendi:
Que meu melhor amigo vai me machucar de vez em quando,
que eu tenho que me acostumar com isso;
Que não é bastante ser perdoado pelo outros,
eu preciso me perdoar primeiro;
Que, não importa o quanto meu coração esteja sofrendo,
o mundo não vai parar por causa disso.
Eu aprendi:
Que as circunstâncias de minha infância são responsáveis
pelo que eu sou, mas não pelas minhas escolhas
que eu fiz quando adulto
Que numa briga, eu preciso escolher de que lado estou,
mesmo quando não quero me envolver.
Que , quando duas pessoas discutem não significa que elas
se odeiem. E quando duas pessoas não discutem
não significa que elas se amem.
Eu aprendi:
Que a palavra amor perde o sentido, quando usada sem critério;
Que certas pessoas vão embora de qualquer maneira;
quer você queira ou não;
Que é difícil traçar uma linha entre ser gentil,
não ferir pessoas, e saber lutar pelas coisas que acredita.
Eu aprendi:
Que sou mais forte que imaginava, e que posso ir mais longe depois de pensar que não podia mais;
E que realmente a vida tem valor e eu tenho valor diante da vida !
A lição dos sapatos do Rei
Era uma vez um rei que, há muito tempo, governava um país. Um dia, ele saiu em viagem para algumas áreas bem distantes. Quando retornou ao palácio, reclamou que seus pés estavam terrivelmente doloridos, porque era a primeira vez que fazia uma viagem tão longa e que havia muitos pedregulhos pela áspera estrada.
Ele ordenou a seus servos que cobrissem toda a estrada, por todo o país com couro.
Definitivamente, essa obra necessitaria de milhares de vacas esfoladas e custaria uma quantia enorme de dinheiro.
Então, um dos mais sábios entre os criados ousou falar ao rei:
-Por que o rei tem que gastar essa quantia desnecessária de dinheiro? Por que, simplesmente, não manda cortar um pequeno pedaço de couro para cobrir seus pés?
O rei ficou surpreso, mas concordou com a sugestão. Mandou fazer um par de sapatos para ele.
Há uma valiosa lição de vida dentro dessa história:
Para fazer deste mundo um lugar feliz para se viver, é melhor você mudar a si próprio e não o mundo!
Era uma vez um rei que, há muito tempo, governava um país. Um dia, ele saiu em viagem para algumas áreas bem distantes. Quando retornou ao palácio, reclamou que seus pés estavam terrivelmente doloridos, porque era a primeira vez que fazia uma viagem tão longa e que havia muitos pedregulhos pela áspera estrada.
Ele ordenou a seus servos que cobrissem toda a estrada, por todo o país com couro.
Definitivamente, essa obra necessitaria de milhares de vacas esfoladas e custaria uma quantia enorme de dinheiro.
Então, um dos mais sábios entre os criados ousou falar ao rei:
-Por que o rei tem que gastar essa quantia desnecessária de dinheiro? Por que, simplesmente, não manda cortar um pequeno pedaço de couro para cobrir seus pés?
O rei ficou surpreso, mas concordou com a sugestão. Mandou fazer um par de sapatos para ele.
Há uma valiosa lição de vida dentro dessa história:
Para fazer deste mundo um lugar feliz para se viver, é melhor você mudar a si próprio e não o mundo!

Ternura
Vinicius de Moraes
Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar
[ extático da aurora.
Texto extraído da antologia "Vinicius de Moraes - Poesia completa e prosa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 1998, pág. 259.
Conheça a vida e a obra do autor em "Biografias".
quarta-feira, 4 de novembro de 2009

AMEI com todas as fibras da minh`alma.
Amei com toda a força do meu coração...
Amei com todo o entusiasmo da minha inexperiência,
Amei com toda a empolgação da primeira vez...
Amei, como só sabem amar aqueles que são capazes de CHORAR...
E eu CHOREI...
Chorei a sua ausência...
Chorei meus braços vazios nas noites frias,chorei meu corpo sem vida,sem desejo...
Chorei meus lábios tão secos,
Chorei minhas dúvidas, minhas mágoas...
Chorei teu rosto tão ausente,
Chorei teu olhar tão triste,vazio,perdido....
Chorei a felicidade que se foi.
Chorei o sonho que não se realizou.
Chorei de ódio,de raiva, de arrependimento,de saudade,de tristeza.
Chorei de amor.
Chorei o vazio tão grande que sua ausência me deixou...
Chorei,como só choram os corações que SOFREM...
E eu SOFRI.
Sofri calada...
Sofri aos berros,aos gritos,chorando,gritando seu nome...
Sofri em casa,na escola, na rua...
Sofri em dias quentes e frios.
Sofri em noites claras e escuras...
Sofri no inverno,sofri na primavera, sofri em todas as horas,minutos e segundos...
Sofri no silêncio do meu quarto, no burburinho das ruas, no tumulto dos shoppings....
Sofri de abandono, angústia e solidão.
Sofri de desespero, dor e preocupação.
Sofri ao relembrar os sonhos, ouvir sua voz, sentir seu olhar...
Sofri de frio na alma, febre no corpo, desejo na boca...
Sofri de incerteza, frieza e decepção.
Sofri, como só sofrem aqueles que LUTAM....
E eu LUTEI...
Ah! Deus,como lutei !!!
Me empenhei numa luta sem glória, numa batalha feroz ,
num desejo tão louco de chegar à vitória...
Eu lutei contra mim, contra o mundo, contra o tempo para ter você.
Eu lutei contra a raiva, contra o ódio, contra a mágoa
que insistiam em morar em meu peito.
Eu lutei contra inimigos invisíveis que queriam destruir você...
Eu lutei com forças poderosas que queriam destruir a mim.
Eu lutei por mim, eu lutei por você, eu lutei por nós dois.
Eu lutei por um amor tão grande, tão forte, tão lindo...
Eu lutei por um desejo não satisfeito, por um futuro tão incerto, por um passado cheio de planos.
Eu lutei pelos meus sonhos, pela minha vida, pelo meu amor.
Amarguei a derrota, mas não abri mão da ilusão.
Eu lutei, como só lutam os que têm ESPERANÇA...
E eu tive ESPERANÇA...
Esperança em cada raio de sol de um novo dia, em cada noite que caía...
Esperança num olhar, num sorriso, numa canção.
Esperança no vazio da sua alma, na saudade do seu corpo, na solidão do seu quarto.
Esperança no menino que dormia em meu colo,
Esperança no homem que me dominava...
Esperança nos sorrisos, nas lágrimas, de dia, de noite, na alegria e na dor... Esperança que você me amasse,
Esperança que você me quisesse,
Esperança que você voltasse.
Eu tive Esperança, como só tem aqueles que AMAM...
E eu AMEI...
Amei com todo meu corpo e o meu coração...
Te amei num olhar, num toque, num beijo, num abraço.
Te amei no medo, na dúvida, na incerteza...
Te amei na alegria e na tristeza.
Te amei em cada gesto e em cada palavra.
Te AMEI na ESPERANÇA ,
Te amei na LUTA, na derrota, na dor...
Te amei em sonhos, pesadelos e devaneios...
Te amei na loucura do desejo, te amei na doçura do teu beijo...
Te amei, como te amo hoje, como te amarei para sempre...
EU NÃO SOFRI...
EU FUI FELIZ...
EU AMEI !!!
(A.D.)
domingo, 1 de novembro de 2009
Rubem Alves - Aos namorados, com carinho
"AS COISAS QUE AMO DEIXO-AS LIVRES. SE VOLTAREM, PORQUE AS CONQUISTEI...SE NÃO VOLTAREM É PORQUE NUNCA AS TIVE."
Escreveu-me uma leitora aflita pedindo que eu a socorresse, posto que eu fora a causa involuntária do seu sofrimento. A leitura de um livro escrito por mim, A menina e o pássaro encantado, causara-lhe grande perturbação em virtude de coisas que ali digo através do bico do pássaro. Pois está lá dito que a saudade faz bem ao amor, pois que é justamente na dor da separação que o coração faz a operação mágica de re-encantar os amantes que o cotidiano só faz banalizar. Esta era a razão que sempre levava o pássaro, depois de um tempo de abraços e amassos, a dizer que era hora de partir, pois sem a saudade tanto ele quanto a menina perderiam o seu encanto e o amor acabaria.
Imagino que minha leitora deve ter opinião semelhante à da menina que de forma alguma concordava com as razões do pássaro, o que a levou ao tresloucado gesto de comprar uma gaiola de prata onde encerrou o pássaro adormecido, pensando que, assim, viveriam em lua-de-mel sem fim. O final, quem leu o livro sabe, quem não leu que compre. Pois a leitora pergunta-me se é preciso que haja saudade para que o amor cresça.
Saudade é um buraco dolorido na alma. A presença de uma ausência. A gente sabe que alguma coisa está faltando. Um pedaço nos foi arrancado. Tudo fica ruim. A saudade fica uma aura que nos rodeia. Por onde quer que a gente vá, ela vai também. Tudo nos faz lembrar a pessoa querida. Tudo que é bonito fica triste, pois o bonito sem a pessoa amada é sempre triste. Aí, então, a gente aprende o que significa amar: esse desejo pelo reencontro que trará a alegria de volta.
A saudade se parece muito com a fome. A fome também é um vazio. O corpo sabe que alguma coisa está faltando. A fome é a saudade do corpo. A saudade é a fome da alma. Imagine, agora, você é doida por camarão. Só de falar em camarão a boca se enche d’água. Aí, movida pela fome de camarão, você resolve comprar camarão por um mês. Compra logo 50 quilos, dos grandes, e come camarão no almoço e no jantar. No começo é aquela festa. ‘Camarão à baiana, camarão à grega, camarão empanado, camarão à milanesa, bobó de camarão, risoto de camarão, camarão na moranga’. Pois eu lhe garanto que sua fome por camarão não vai durar uma semana. Ao final da primeira semana só cheiro do camarão vai provocar convulsões no seu estômago, e o que você vai querer, mesmo, é arroz, feijão, chuchu refogado, tomate e bife com batatas fritas. Diz um ditado que a melhor comida é angu com fome. Saudade é fome. Enquanto existir a fome, o angu será gostoso. Enquanto existir a saudade o amor será gostoso. Advirto-a, então: Se você tem idéias semelhantes às da menina da estória e planeja engaiolar o pássaro a fim de não ter saudade, na ilusão de que o amor pode viver de beijos e amassos, trate de livrar-se delas. Beijos e amassos são como camarão: deliciosos, excitantes. Mas, se servidos todo dia, enjoativos...
Você invoca a raposa de O pequeno príncipe contra mim, pois que ela diz que a saudade só tem sentido se, se sabe quando a pessoa amada volta. Aí, sabendo-se a hora da volta, começa-se o ritual da espera... Isso é muito verdadeiro e é muito bom. Mas vou invocar o Chico contra a raposa: “Saudade é o revés de um parto. Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”. O filho nunca voltará. Resta a saudade como manifestação do amor. O quarto que se arruma é um rito de amor, sabendo-se que a pessoa amada nunca voltará.
Querida amiga: infelizmente o amor é feito com muitos “nunca mais” – a expressão mais triste que existe. Aí você pula de pássaro a sapo, perguntando-me se, no caso de o sapo não se transformar em príncipe no primeiro beijo, se deve insistir com a beijação. Aqui cabem algumas observações.
Primeira: Todo príncipe que é submetido a uma dieta de camarões sem trégua vira sapo.
Segunda: Há sapos resistentes a beijo. Prova disso é a estória da princezinha que deixou cair no açude uma bola de ouro que seu pai lhe dera de presente (o rei era doidão, sem juízo). Ouvindo o choro da menina, saiu da água um enorme sapo de olhos esbugalhados que disse que lhe daria a bola de ouro se ela concordasse em dormir com ele. Até hoje sapos dizem a mesma coisa a meninas tolas, só que hoje não se fala em “dormir com” mas em “ficar junto”. A menina concordou, mas logo que se viu de posse da bola saiu em desabalada carreira, deixando para trás o sapo e os seus pulos. Mas o sapo não se deu por vencido. Foi ao palácio, chamou o rei, relatou o acontecido, e o rei, doidão e sem juízo como já afirmamos, obrigou a menina a dormir com o sapo. Se fosse hoje, evidentemente, ela fugiria para a Pachá. Quando o sapo se aproximou dela, ela teve tanto nojo que o pegou por uma perna e o jogou contra a parede. Foi zás-trás. Ao cair no chão o sapo virou um garboso príncipe. Assim é: há sapos que só se transformam em príncipes quando são jogados contra a parede. Tente essa técnica.
Terceira: Se, após a magia dos beijos e a magia de se jogar o sapo na parede, o sapo continuar sapo, é porque ele é sapo mesmo. Não há magia que resolva. Nesse caso, a única solução é você virar sapa. Porque, se você for sapa, você achará o seu sapo um príncipe maravilhoso. Terão, então, muitos sapinhos.
Você me pergunta sobre o que fazer quando o coração acredita firmemente que o sapo é príncipe e o sapo diz que ele é sapo mesmo, geneticamente, não sendo coisa de opção... O que fazer? Acho que é preciso desconfiar do coração. O coração é ótimo para amar. Mas, por isso mesmo, suas opiniões não são confiáveis. Muita gente acreditou firmemente que o Sol girava em torno da Terra e que o nazismo era maravilhoso. Pode ser que o sapo esteja dizendo a verdade. A vantagem do sapo é que ele nunca baterá as asas, como o pássaro. Muita gente prefere sapos a pássaros. Os sapos são mais confiáveis. A gente sempre sabe onde estão: no charco. Já os pássaros – onde estarão? Como é dolorido vê-los aprontando para a partida! A vantagem dos pássaros sobre os sapos é que eles são belos: seres indomáveis, selvagens.
Uma pergunta: Por que é que você não deixa de ser a menina e transforma-se no pássaro? Bata as asas. Deixe o sapo esperando. Feito a Shirley Valentine. Quem sabe a magia acontecerá? Ainda não se testou o poder da saudade no coração dos sapos. Poder ser que funcione.
"AS COISAS QUE AMO DEIXO-AS LIVRES. SE VOLTAREM, PORQUE AS CONQUISTEI...SE NÃO VOLTAREM É PORQUE NUNCA AS TIVE."
Escreveu-me uma leitora aflita pedindo que eu a socorresse, posto que eu fora a causa involuntária do seu sofrimento. A leitura de um livro escrito por mim, A menina e o pássaro encantado, causara-lhe grande perturbação em virtude de coisas que ali digo através do bico do pássaro. Pois está lá dito que a saudade faz bem ao amor, pois que é justamente na dor da separação que o coração faz a operação mágica de re-encantar os amantes que o cotidiano só faz banalizar. Esta era a razão que sempre levava o pássaro, depois de um tempo de abraços e amassos, a dizer que era hora de partir, pois sem a saudade tanto ele quanto a menina perderiam o seu encanto e o amor acabaria.
Imagino que minha leitora deve ter opinião semelhante à da menina que de forma alguma concordava com as razões do pássaro, o que a levou ao tresloucado gesto de comprar uma gaiola de prata onde encerrou o pássaro adormecido, pensando que, assim, viveriam em lua-de-mel sem fim. O final, quem leu o livro sabe, quem não leu que compre. Pois a leitora pergunta-me se é preciso que haja saudade para que o amor cresça.
Saudade é um buraco dolorido na alma. A presença de uma ausência. A gente sabe que alguma coisa está faltando. Um pedaço nos foi arrancado. Tudo fica ruim. A saudade fica uma aura que nos rodeia. Por onde quer que a gente vá, ela vai também. Tudo nos faz lembrar a pessoa querida. Tudo que é bonito fica triste, pois o bonito sem a pessoa amada é sempre triste. Aí, então, a gente aprende o que significa amar: esse desejo pelo reencontro que trará a alegria de volta.
A saudade se parece muito com a fome. A fome também é um vazio. O corpo sabe que alguma coisa está faltando. A fome é a saudade do corpo. A saudade é a fome da alma. Imagine, agora, você é doida por camarão. Só de falar em camarão a boca se enche d’água. Aí, movida pela fome de camarão, você resolve comprar camarão por um mês. Compra logo 50 quilos, dos grandes, e come camarão no almoço e no jantar. No começo é aquela festa. ‘Camarão à baiana, camarão à grega, camarão empanado, camarão à milanesa, bobó de camarão, risoto de camarão, camarão na moranga’. Pois eu lhe garanto que sua fome por camarão não vai durar uma semana. Ao final da primeira semana só cheiro do camarão vai provocar convulsões no seu estômago, e o que você vai querer, mesmo, é arroz, feijão, chuchu refogado, tomate e bife com batatas fritas. Diz um ditado que a melhor comida é angu com fome. Saudade é fome. Enquanto existir a fome, o angu será gostoso. Enquanto existir a saudade o amor será gostoso. Advirto-a, então: Se você tem idéias semelhantes às da menina da estória e planeja engaiolar o pássaro a fim de não ter saudade, na ilusão de que o amor pode viver de beijos e amassos, trate de livrar-se delas. Beijos e amassos são como camarão: deliciosos, excitantes. Mas, se servidos todo dia, enjoativos...
Você invoca a raposa de O pequeno príncipe contra mim, pois que ela diz que a saudade só tem sentido se, se sabe quando a pessoa amada volta. Aí, sabendo-se a hora da volta, começa-se o ritual da espera... Isso é muito verdadeiro e é muito bom. Mas vou invocar o Chico contra a raposa: “Saudade é o revés de um parto. Saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”. O filho nunca voltará. Resta a saudade como manifestação do amor. O quarto que se arruma é um rito de amor, sabendo-se que a pessoa amada nunca voltará.
Querida amiga: infelizmente o amor é feito com muitos “nunca mais” – a expressão mais triste que existe. Aí você pula de pássaro a sapo, perguntando-me se, no caso de o sapo não se transformar em príncipe no primeiro beijo, se deve insistir com a beijação. Aqui cabem algumas observações.
Primeira: Todo príncipe que é submetido a uma dieta de camarões sem trégua vira sapo.
Segunda: Há sapos resistentes a beijo. Prova disso é a estória da princezinha que deixou cair no açude uma bola de ouro que seu pai lhe dera de presente (o rei era doidão, sem juízo). Ouvindo o choro da menina, saiu da água um enorme sapo de olhos esbugalhados que disse que lhe daria a bola de ouro se ela concordasse em dormir com ele. Até hoje sapos dizem a mesma coisa a meninas tolas, só que hoje não se fala em “dormir com” mas em “ficar junto”. A menina concordou, mas logo que se viu de posse da bola saiu em desabalada carreira, deixando para trás o sapo e os seus pulos. Mas o sapo não se deu por vencido. Foi ao palácio, chamou o rei, relatou o acontecido, e o rei, doidão e sem juízo como já afirmamos, obrigou a menina a dormir com o sapo. Se fosse hoje, evidentemente, ela fugiria para a Pachá. Quando o sapo se aproximou dela, ela teve tanto nojo que o pegou por uma perna e o jogou contra a parede. Foi zás-trás. Ao cair no chão o sapo virou um garboso príncipe. Assim é: há sapos que só se transformam em príncipes quando são jogados contra a parede. Tente essa técnica.
Terceira: Se, após a magia dos beijos e a magia de se jogar o sapo na parede, o sapo continuar sapo, é porque ele é sapo mesmo. Não há magia que resolva. Nesse caso, a única solução é você virar sapa. Porque, se você for sapa, você achará o seu sapo um príncipe maravilhoso. Terão, então, muitos sapinhos.
Você me pergunta sobre o que fazer quando o coração acredita firmemente que o sapo é príncipe e o sapo diz que ele é sapo mesmo, geneticamente, não sendo coisa de opção... O que fazer? Acho que é preciso desconfiar do coração. O coração é ótimo para amar. Mas, por isso mesmo, suas opiniões não são confiáveis. Muita gente acreditou firmemente que o Sol girava em torno da Terra e que o nazismo era maravilhoso. Pode ser que o sapo esteja dizendo a verdade. A vantagem do sapo é que ele nunca baterá as asas, como o pássaro. Muita gente prefere sapos a pássaros. Os sapos são mais confiáveis. A gente sempre sabe onde estão: no charco. Já os pássaros – onde estarão? Como é dolorido vê-los aprontando para a partida! A vantagem dos pássaros sobre os sapos é que eles são belos: seres indomáveis, selvagens.
Uma pergunta: Por que é que você não deixa de ser a menina e transforma-se no pássaro? Bata as asas. Deixe o sapo esperando. Feito a Shirley Valentine. Quem sabe a magia acontecerá? Ainda não se testou o poder da saudade no coração dos sapos. Poder ser que funcione.
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