segunda-feira, 1 de agosto de 2011
Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso.
Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso.
Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro.
Clarice Lispector
Em que língua falam as almas afins?
Almas Afins...
"Em que língua falam as almas afins?
Que sons ouve em suas vozes de silêncio?
Não falam por palavras.
Almas afins se entendem pelos sentidos,
pela percepção do não dito.
Há um fio tênue e profundo que liga suas emoções,
são registros codificados no abstrato
e decodificados na concretude dos sentimentos.
É cordão umbilical sem cortes.
É árvore florescendo sem poda.
Um inequívoco encontro de raios, que embora distantes,
refletem fragmentos em todas as direções.
Independe da presença,
é força cósmica.
É elo imaginário que a tudo percebe na ausência.
Não é preciso muito para se entender as várias nuances
das almas compatíveis e entrelaçadas.
São metais da mesma têmpera,
aço da mesma forja,
água do mesmo poço,
vinho da mesma safra.
Almas afins apenas se reconhecem.
Quem há de compreender suas poucas palavras?
Quem há de perceber tal transcendência?
Quem poderá entender seus antagonismos e aforismos?
Quem ama assim de igual grandiosidade...
Sendo esta, a excelência de sua natureza."
Márcia Zenkye
SUGESTÕES PARA ATRAVESSAR AGOSTO.
Para atravessar agosto é preciso antes de mais nada paciência e fé. Paciência para cruzar os dias sem se deixar esmagar por eles, mesmo que nada aconteça de mau; fé para estar seguro, o tempo todo, que chegará setembro- e também certa não-fé, para não ligar a mínima às negras lendas deste mês de cachorro louco.É preciso quem sabe ficar-se distraído, inconsciente de que é agosto, e só lembrar disso no momento de, por exemplo, assinar um cheque e precisar da data. Então dizer mentalmente ah!, escrever tanto de tanto de mil novecentos e tanto e ir em frente. Este é um ponto importante:ir, sobretudo, em frente.
Para atravessar agosto também é necessário reaprender a dormir,dormir muito, com gosto, sem comprimidos, de preferência também sem sonhos. São incontroláveis os sonhos de agosto: se bons, deixam a vontade impossível de morar neles, se maus,
fica a suspeita de sinistros angúrios , premonições.Armazenar víveres, como às vésperas de um furacão anunciado, mas víveres espirituais, intelectuais, e sem muito critério de qualidade. Muitos vídeos de chanchadas da Atlântida a Bergman; muitos CDs, de Mozart a Sula Miranda; muitos livros, de Nietzche a Sidney Sheldon. Controle remoto na mão e dezenas de canais a cabo ajudam bem:qualquer problema , real ou não, dê um zap na telinha e filosoficamente considere, vagamente onipotente, que isso também passará. Zaps mentais, emocionais, psicológicos, não só eletrônicos, são fundamentais para atravessar agostos. Claro que falo em agostos burgueses, de médio ou alto poder aquisitivo. Não me critiquem por isso, angústias agostianas são mesmo coisa de gente assim, meio fresca que nem nós. Para quem toma trem de subúrbio às cinco da manhã todo dia, pouca diferença faz abril, dezembro ou, justamente, agosto. Angústia agostiana é coisa cultural, sim. E econômica. Mas pobres ou ricos, há conselhos- ou precauções-úteis a todos. O mais difícil:evitar a cara de Fernando Henrique Cardoso em foto ou vídeo, sobretudo se estiver se pavoneando com um daqueles chapéus de desfile a fantasia categoria originalidade...Esquecê-lo tão
completamente quanto possível(santo ZAP!):FHC agrava agosto, e isso é tão grave que vou mudar de assunto já.
Para atravessar agosto ter um amor seria importante, mas se você não conseguiu, se avida não deu, ou ele partiu- sem o menor pudor, invente um.Pode ser Natália Lage, Antonio Banderas, Sharon Stone, Robocop, o carteiro, a caixa do banco, o
seu dentista. emoto ou acessível, que você possa pensar nesse amor nas noites de agosto, viajar por ilhas do Pacífico Sul, Grécia, Cancún ou Miami, ao gosto do freguês. Que se possa sonhar, isso é que conta, com mãos dadas, suspiros,
juras, projetos, abraços no convés à lua cheia, brilhos na costa ao longe. E beijos, muitos. Bem molhados.
Não lembrar dos que se foram, não desejar o que não se tem e talvez nem se terá, não discutir, nem vingar-se , e temperar tudo isso com chás, de preferência ingleses, cristais de gengibre, gotas de codeína, se a barra pesar, vinhos, conhaques-tudo isso ajuda a atravessar agosto. Controlar o excesso de informações para que as desgraças sociais ou pessoais não dêem a impressão de serem maiores do que são. Esquecer o Zaire , a ex-Iugoslávia, passar por cima das páginas policiais. Aprender decoração, jardinagem, ikebana, a arte das bandejas de asas de borboletas- coisas assim são eficientíssimas, pouco me
importa ser acusado de alienação. É isso mesmo, evasão, escapismos, explícitos.
Mas para atravessar agosto, pensei agora, é preciso principalmente nãose deter de mais no tema. Mudar de assunto,digitar rápido o ponto final, sinto muito perdoe o mau jeito, assim, veja, bruto e seco:.
Caio Fernando Abreu
Amor resiste a tudo, até o limiar da eternidade.
“Amor não se altera com o passar de horas e semanas, mas resiste a tudo, até o limiar da eternidade.”
Shakespeare
Sei lá, menina, tá tudo tão legal — um legal merecido
Sei lá, menina, tá tudo tão legal — e um legal tão batalhado, um legal merecido, de costas e pernas doendo, mas coração tranqüilo.
(Caio F.)
É necessário ter consciência de que, apesar de muitas vezes estar em um grupo ou ambiente com o qual não se identifica, tolerar tal situação pode servir para alcançar outros estágios.
"Era uma vez uma pata muito mansa que chocava os seus ovos lá para os lados do rio, quase na época da colheita. Num belo dia, como era de se esperar, os ovinhos começaram a se quebrar, e um a um dos filhores foram saindo da casca.
- Eles não são lindos? - gabou-se a mãe pata para uma amiga que a visitava, apesar de um dos ovos ainda estar inteiro.
A amiga, observando este ovo, disse:
- Esse ovo é de peru. Deixe-o de lado, pois perus não podem nadar, você sabia?
Ela sabia, porque já havia tentado uma vez, mas a mãe pata quis insistir:
- Não estou preocupada com isso, mas você sabia que o pato pai destes filhotes sequer
veio aqui me ver?
Afinal, o ovo grande começou a se mexer e um filhotinho, que nada tinha a ver com um filhote de pato, saiu da casca.
A mãe pata contemplou o pequenino e concluiu:
- É, ele é mesmo diferente e feio. Deve ser um filhote de peru.
Depois, mais reflexiva ainda, concluiu:
- É, mas olhando do ângulo certo ele é até bonitinho, e como é um dos meus,
vai ser cuidado como os outros.
E assim, ela o apresentou para as outras criaturas que o criticavam e debochavam dele.
A pata rainha, ao olhar o filhotinho, chamou-o de patinho feio e, juntamente com os outros,
fazia de tudo para importunar o animal.
No princípio, a mãe pata o defendia, mas, com o tempo, até ela desistiu de defendê-lo.
Num certo dia, exasperada, exclamou:
- Como eu queria que você fosse embora! Triste e sentindo-se só, o patinho feio fugiu para o pântano, enfrentou tiros de caçadores e acabou por pousar próximo a um casebre. Ali vivia uma velha esfarrapada, com seu gato desgrenhado e sua galinha vesga. O gato fazia jus a morar com a velha por apanhar camundongos e a galinha por botar ovos.
Contemplando o patinho feio, a velha julgou-se estar com sorte por tê-lo encontrado.
- Talvez seja uma pata para botar ovos e, se não for, podemos comê-lo - pensou.
- Para que você serve se não coloca ovos e não sabe caçar camundongos? - perguntou a velha, intrigada, ao patinho feio.
- O que eu mais gosto de fazer é de ficar debaixo da imensidão do céu ou do frescor azul da água - respondeu prontamente o pato, mas o gato não via nenhum sentido em ficar de baixo d’água e o criticou.
A galinha não via vantagem em ficar com as penas molhadas e também o criticou. Aos poucos, o pato percebeu que ali também não teria paz. Numa noite, saiu do casebre e, caminhando sem rumo, encontrou um laguinho. Dia após dia, o laguinho ficava cada vez mais gelado até que, por fim, congelou-se.
Recolhido, o patinho apreciava o céu quando, repentinamente, um bando de aves sobrevoou o laguinho e, vendo o pato, deram gritos de cumprimento. Admirado, o patinho deu um grito como jamais tinha feito antes. Entretando, aos poucos as aves foram se distanciando. E o patinho ficou com uma marca estranha em seus sentimentos. No escuro e no frio, ficou recordando o alvoroço de tais aves, que o trataram como se fosse alguém importante.
Finalmente, a neve começou a cair e o patinho tinha que nadar constantemente para manter a sua asa sem congelar. Nadava em círculos até se cansar.
Um dia, entretanto, se sentiu preso no gelo e percebeu que iria morrer. Dois patos enormes e fortes, vendo-o congelar, se aproximaram, dando esperança ao patinho feio. Mas, ao contrário do que imaginava, escutou apenas deboches e foi abandonado.
Felizmente um lavrador passou por ali e o salvou. Em casa, seus filhos quiseram brincar com o patinho que, desastrado, caiu dentro de uma jarra de leite e, depois, de um pote de farinha. As crianças riam sem parar, mas a dona da casa expulsou o pato a vassouradas.
O inverso inteiro foi de casa em casa até que o verão se aproximou. Num dia ensolarado, o patinho resolveu dar uma nadada. Sentiu-se muito forte e percebeu que suas asas estavam diferentes – grandes e fortes. Seguro, alçou vôo como nunca tinha feito antes. Lá do alto do céu, avistou um bando de cisnes brancos e belos.
Receoso, pensou:
- Será que eles vão gostar de mim? E se fingirem que gostam de mim e, depois, me abandonarem? Mas, assim que os cisnes o viram, começaram a se aproximar dele. Desolado, ele abaixou a cabeça, esperando os safanões que iria receber, mas vislumbrando-se n’água viu-se belo e forte, como um cisne real.
Percebeu, surpreso, que fazia parte daquele grupo e que seu ovo por engano havia sido chocado por uma pata. Todas as crianças e animais perceberam o novo cisne e saudaram-no felizes."
Muitas vezes, as pessoas sentem que estão no lugar errado, com as pessoas erradas ou um parceiro errado. Outras não têm consciência de que estão no ambiente errado, mas o grupo as percebe como pessoas de fora.
A mensagem básica embutida na narração sobre o patinho feio é de que é necessário que o indivíduo aprenda a perder menos tempo com pessoas que não o querem bem e com atividades que não são prazerosas e que passe a se dedicar a pessoas e atividades em que se sinta valorizado. Mas é necessário que ele tenha consciência de que, apesar de muitas vezes estar em um grupo ou ambiente com o qual não se identifica, tolerar tal situação pode servir para alcançar outros estágios. É necessário, como o patinho feio fez no conto,
aguentar até encontrar a turma certa.
Os personagens da narração e os acontecimentos nela descritos possuem inúmeros significados.
Em geral, nos contos e mitos, quando o personagem principal é um animal com qualidades intrínsecas humanas, ele representa a natureza selvagem do homem.
No conto, o patinho representa esta natureza e está em busca de um território propício para se expressar. Em termos de ambiente de trabalho, por exemplo, buscar o melhor território para expressar talentos e criatividade é a meta de muitos, mas não de todos.
Há aqueles que buscam apenas estabilidade financeira e que são felizes assim. Mas para aqueles que só o financeiro não é suficiente, é necessário resistir, muitas vezes com elegância, os desafios que aparecem. E o patinho feio é excelente referencial disso...
A verdadeira família psíquica (profissional, sexual, afetiva etc) de um indivíduo é fonte de vitalidade e, para muitos, dá a sensação de pertencer ao todo. Atingir esse estágio, entretanto, exige esforço, disciplina e determinação.
A história do patinho feio traz algumas imagens simbólicas que marcam e delimitam esta jornada:
A rejeição da criatura diferente
O patinho feio foi numerosas vezes avaliado por outros animais e considerado feio. Na realidade, ele não era feio, só não combinava com os outros.
Como ele, muitos indivíduos se sentem rejeitados quando passam a pertencer a um determinado grupo, seja familiar, profissional ou de amigos. O que mais dói nestes indivíduos não é a consciência de serem diferentes, mas o fato de serem maltratados por serem considerados diferentes. Sentem-se, e com razão, injustamente maltratados.
Para o indivíduo que se encontra neste estágio, o conflito básico é: "Como posso relevar as minhas questões íntimas e pessoais com as questões externas e sociais?"
Ser mãe de si mesmo
No conto, o patinho feio era defendido por sua mãe, que o protegia e o alimentava. Mas, pouco a pouco, esta proteção foi diminuindo, até que um dia a própria mãe o rejeitou. O aprendizado nessa parte da história é que é necessário que o indivíduo consiga se tornar independente da sua mãe exterior, que pode ser uma chefia, uma empresa ou uma família e que faz papel de guardiã. À medida que o indivíduo avança na vida, entretanto, deve aprender a aquecer-se sozinho, a alimentar-se sozinho e a ser seu próprio guia.
Permanecer no lugar errado
Estar no ambiente errado e com pessoas erradas não é problema. É aprendizado e provação que avaliará a capacidade do indivíduo de saber negociar, ponderar e esperar para avançar. As tribos existentes são numerosas e há lugar para todo tipo de gente. Entretanto, permanecer numa tribo que exige do indivíduo que ele sacrifique a sua alma é estar criando para si uma vida doente. Seja no ambiente de trabalho, na família ou entre amigos, é necessário que o indivíduo saiba que ele não é obrigado a escolher entre responder à sua alma e obedecer a tribo em questão. Ele deve, sempre, responder à sua alma. A questão, portanto, não é querer quebrar as regras ou impor as próprias, mas sim avaliar quais são as regras, proibições e metas aceitáveis.
O aprendizado aqui é:
Deve-se levantar e sair à procura do lugar a que se pertence.
Estar atento às más companhias
Apesar do patinho ainda ser um filhote, a sua capacidade de vagar para encontrar o que almejava estava sempre forte e atuante. Mas, por algumas vezes, o patinho repetiu o erro de bater em portas erradas. Também confiou em pessoas erradas. Como ele, as pessoas podem desenvolver a síndrome do patinho feio e estar, constantemente, em situações em que são maltratadas, pouco valorizadas ou desprezadas.
O aprendizado neste ponto da história é:
Não há portas erradas, mas há portas que fazem com que o indivíduo se sinta proscrito. Estas são as erradas: as mal escolhidas.
A aparência indevida
À medida que a história avança, é possível perceber que o patinho feio foi tomando consciência de que não tinha a imagem certa para determinados grupos. No início, insistiu em querer agradar, mas acabou ficando com a fama de desajeitado, de um atrapalhado que não consegue fazer nada certo. E quanto mais ele insistia, mais as coisas davam errado.
Quantos indivíduos que, como o pato, não passaram por situações profissionais ou afetivas em que todas as atitudes feitas com objetivo de melhorar acabaram estragando mais ainda a situação? Como o patinho, estes indivíduos se esforçam constantemente para serem aceitos e serem bons o suficiente. Ledo engano.
A questão não é agradar, mas se identificar. Quando há uma identificação, a aceitação é natural. Nesse caso, cada um se sente componente do mesmo todo e valoriza o outro por isso.
Permitir-se congelar
Num determinado momento da narração, o patinho feio quase morreu no lago congelado. Como ele, inúmeras pessoas deixam-se congelar. Mas, como no conto, é necessário descongelar a alma, não desistir, pois o gelo paralisa a criatividade, apaga seu fogo. As situações que ajudam um indivíduo a se congelar são várias: comentários maldosos, inveja alheia, falta de oportunidade para se expressar, pouca valorização.
Cabe ao indivíduo fazer como o patinho: nadar em círculos por algum tempo para não deixar água e a suas asas congelarem, mesmo que todo o lago esteja cristalizado. "
(http://www.catho.com.br)
Assinar:
Postagens (Atom)






