quarta-feira, 7 de abril de 2010

PRAZER PELA METADE


Não há nada que me deixe mais

frustrada do que pedir sorvete de sobremesa,

contar os minutos até ele chegar e aí ver o

garçom colocar na minha frente uma bolinha

minúscula do meu sorvete preferido ? Uma só.

Quanto mais sofisticado o restaurante,

menor a porção da sobremesa. Aí a vontade

que dá é de passar numa loja de conveniência,

comprar um litro de sorvete bem cremoso e

saborear em casa com direito a repetir quantas

vezes a gente quiser, sem pensar em calorias,

boas maneiras ou moderação.



O sorvete é só um exemplo do que

tem sido nosso cotidiano.

A vida anda cheia de meias

porções, de prazeres meia-boca,

de aventuras pela metade. A gente

sai pra jantar, mas come pouco.

Vai à festa de casamento,

mas resiste aos bombons.



Conquista a chamada liberdade sexual,

mas tem que fingir que é difícil

(a imensa maioria das mulheres

continua com pavor de ser rotulada de 'fácil').

Adora tomar um banho

demorado, mas se contém pra não

desperdiçar os recursos do planeta.

Quer beijar aquele cara 20 anos

mais novo, mas tem medo

de fazer papel ridículo.



Tem vontade de ficar

em casa vendo um DVD, esparramada

no sofá, mas se obriga a ir malhar. E por aí vai.

Tantos deveres, tanta preocupação

em 'acertar', tanto empenho em passar

na vida sem pegar recuperação...

Aí a vida vai ficando sem tempero,

politicamente correta eexistencialmente

sem-graça, enquanto a gente vai

ficando melancolicamente sem tesão...



Às vezes dá vontade de fazer

tudo 'errado' ? deixar de lado a régua,

o compasso, a bússola, a balança

e os 10 mandamentos.

Ser ridícula, inadequada, incoerente

e não estar nem aí pro que dizem e

o que pensam a nosso respeito. Recusar

prazeres incompletos e meias porções.



Até Santo Agostinho, que foi santo,

uma vez se rebelou e disse uma

frase mais ou menos assim:

'Deus, dai-me continência e castidade,

mas não agora'...

Nós, que não aspiramos à santidade

e estamos aqui de passagem,

podemos (devemos?) desejar várias

bolas de sorvete, bombons de

muitos sabores, vários beijos bem

dados, a água batendo sem pressa

no corpo, o coração saciado.

Um dia a gente cria juízo.

Um dia.

Não tem que ser agora.



Por isso, garçom, por favor,

me traga: cinco bolas de sorvete de

chocolate, um sofá pra eu ver

10 episódios do 'Law and Order',

uma caixa de trufas bem macias

e o Richard Gere, nu, embrulhado

pra presente. OK ?

Não necessariamente nessa ordem.

Depois a gente vê como é que

faz pra consertar o estrago.

***Leila Ferreira***

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